quarta-feira, 18 de novembro de 2009

SURPRESAS

Terapia de Grupo
4º Encontro 11/11/09

SURPRESAS

Gostava de surpresas. Surpresas simples, com aparências de bobas.
Minha mãe costumava brincar de surpresas. Fazer surpresa para os filhos. Ela surpreendia a todos nós, diariamente. De repente, abríamos os cadernos e encontrávamos recados, bilhetes e, às vezes, verdadeiros torpedos, escritos por minha mãe.
Num cantinho do caderno, em folhinhas pequeninas dentro dos livros, em dobraduras dentro de nossos bolsos e calças ou camisas, nas bolsas escolares e também nas gavetas de roupas. Até em minhas cuecas encontrei papeletas com um “Cuide-se”. Dentro dos sapatos e tênis, era comum descobrirmos bilhetinhos do tipo “Que pé macio e cheiroso! Lembre-se do talco, querido.” Nos bolsos das camisas: “Comigo vai ficar mais bonito”. Quando púnhamos as mãos nos bolsos das calças, lá estavam os papeizinhos, dobradinhos, cheios de palavras de elogio, afeto, carinho e lembranças para lavar as mãos e limpar as unhas. Ou simplesmente a marca do beijo da boca de minha mãe impressa no papel com o batom. E ainda pétalas de rosas sequinhas.
Mas, das surpresas, a de que eu mais gostava era a das misturas no arroz. Minha mãe herdara de minha avó essa mania de fazer o arroz misturado. Arroz com cenouras. Arroz com espinafre. Arroz com bananas. Arroz com miúdos de galinha. Arroz com mexidinho de ovos. Arroz com pétalas de rosas. Arroz com torresmo de porco. Arroz com milho. Arroz com pedacinhos fritos de aipim. Cada dia uma surpresa no arroz. Eu ia para a mesa na expectativa do arroz. Era sempre uma boa surpresa. Até quando era o arroz com beterraba. O arroz misturado era sedutor. Abria o apetite. E como era bom o baião-de-dois, o maria-isabel, o carreteiro, o com passas ao vinho e tantos outros.
Outro dia eu fiz arroz com pedacinhos de abacaxi. Uma delícia o arroz misturado, principalmente se for surpresa. Outra boa surpresa é abrir a carteira e encontrar uma folhinha colorida com um poema de letrinhas bem redondinhas. Surpresa, surpresa mesmo é o freqüente bilhetinho com o “Amo você” no fundo das meias.

Texto extraído do Livro: Lembranças Amorosas. Francisco Gregório Filho.

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